Eras Poeta.
Com caneta e papel
declamaste a tua vida, inventaste o pormenor;
Eras Pintor.
E com tela e pincel
coloriste de alegria todo o mundo em teu redor.
Eras um Mestre.
E partiste num batel,
tão salgado do desejo de alcançar algo maior.
Foste Esforço.
Foste Génio.
Foste Sangue e Suor.
Para aqueles que deixaste
fica a Hora em que partiste;
resta a Terra que abraçaste.
Do batel que construíste
fica o Mar que navegaste;
fica o Mundo bem mais triste.
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
O Natal que sou agora
Vou-me deitar. O vento e a chuva lá fora incomodam-me. Incomodam-me, mas acabam por me embalar para um qualquer Natal passado. O meu Natal é memória. O meu Natal é feito de sítios e de pessoas, de criptoméria, presépio e ramos de cedro com prendas em cima. Alguns sítios já não são os mesmos sítios e algumas pessoas já não são as mesmas pessoas (algumas já não são, simplesmente, pessoas), mas a memória está comigo e faz de mim o Natal que sou. Quero chorar. Quero chorar, porque os sítios de agora são outros e as pessoas de agora são outras. Quero chorar, porque no Natal que sou já não existe Pai Natal. Quero chorar, porque o Natal que existe em mim é só memória. É história. E eu quero tanto atirar-me para o chão, bater com os punhos e com os pés e berrar:
Eu quero o mesmo Natal para sempre!
Eu quero o mesmo Natal para sempre!
Eu quero o mesmo Natal para sempre!
Apetece-me tanto desgraçar-me e fazer figura triste... e adormeço nesta loucura. Adormeço na chuva e no vento que batem na minha janela, chamando por mim, pelo Natal que fui... mas o Natal que fui é o Natal que sou agora.
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Charlie Babbitt
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terça-feira, 21 de novembro de 2006
Tu é que 'tás bem!
"Tu é que 'tás bem e não sabes!". Ouço isto com frequência quando vou ao café do costume, de manhã, encharcar o estômago de cafeína e sabe-se mais lá de quê, depois de ter enfiado uma sandes de queijo e um galão pela goela abaixo.
O dono é um "gajo porreiro", daqueles que se dá com toda a gente e tem sempre um comentário a fazer sobre a vida de cada um. Comigo, a conversa é "tu é que 'tás bem na vida... e não sabes!". Diz isto e sorri, enquanto prepara mais umas chávenas de café para uns zombies que vão entrando de vez em quando. Eu, geralmente, sorrio e não digo nada. Baixo os olhos, para não lhe dar a entender que não percebo o que quer dizer com aquilo, mas entendo, no fundo. É só para não estar calado. Afinal, servir num café deve ser bem aborrecido. O tédio vai acumulando e, de repente, saem umas bojardas assim. É que hoje decidi responder-lhe.
- Tu é que 'tás bem e não sabes!
- ...epá, se eu estivesse mesmo, mas mesmo bem, era milionário e estava era em casa, sem fazer nada, em vez de vir aqui todas as manhãs...
Fechou o sorriso, baixou os olhos e continuou a tirar cafés. Perguntei quanto era, paguei e saí. Por hoje, expliquei-lhe que não estou assim tão bem. Vamos lá ver se amanhã ainda se lembra disso, ou se o tédio já é tão crónico que a conversa lhe acabe por escorrer outra vez.
O dono é um "gajo porreiro", daqueles que se dá com toda a gente e tem sempre um comentário a fazer sobre a vida de cada um. Comigo, a conversa é "tu é que 'tás bem na vida... e não sabes!". Diz isto e sorri, enquanto prepara mais umas chávenas de café para uns zombies que vão entrando de vez em quando. Eu, geralmente, sorrio e não digo nada. Baixo os olhos, para não lhe dar a entender que não percebo o que quer dizer com aquilo, mas entendo, no fundo. É só para não estar calado. Afinal, servir num café deve ser bem aborrecido. O tédio vai acumulando e, de repente, saem umas bojardas assim. É que hoje decidi responder-lhe.
- Tu é que 'tás bem e não sabes!
- ...epá, se eu estivesse mesmo, mas mesmo bem, era milionário e estava era em casa, sem fazer nada, em vez de vir aqui todas as manhãs...
Fechou o sorriso, baixou os olhos e continuou a tirar cafés. Perguntei quanto era, paguei e saí. Por hoje, expliquei-lhe que não estou assim tão bem. Vamos lá ver se amanhã ainda se lembra disso, ou se o tédio já é tão crónico que a conversa lhe acabe por escorrer outra vez.
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Charlie Babbitt
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08:37
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segunda-feira, 20 de novembro de 2006
A Alma por um Búzio
Troquei a minha alma por um búzio,
só mesmo p'ra poder ouvir o mar;
e fiz do coração um subterfúgio,
uma caixa de segredos por contar.
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Charlie Babbitt
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10:42
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sexta-feira, 17 de novembro de 2006
6ª feira no estômago
O meu estômago diz-me que hoje é sexta-feira. Já tenho esta sensação há anos… mesmo naqueles tempos em que não tinha nada para fazer, já sentia a sexta-feira na boca do estômago. Ia para a escola a semana toda, não fazia puto de nada, senão estudar (pouco) e brincar nos intervalos e também no meio das aulas. Não me preocupava com nada, já que a mamã e o papá me faziam a papinha toda. Não sabia o que eram as contas da luz, da água e do gás, nem o que era ter uma casa para pagar. Ainda não havia TV Cabo, mas havia parabólicas… pensava que era mesmo o Pai Natal que comprava tudo o que me aparecia debaixo da árvore no dia 24 de Dezembro, depois do jantar, e que ele tinha mesmo bebido um copinho de aguardente, que o meu pai lhe oferecia sempre, por causa do frio!... mas quando chegava a sexta-feira, sentia – e sinto – sempre o mesmo. Entro num estado de euforia contida; o dia, se é de trabalho, leva uma eternidade a chegar ao fim. Quando chega, alguma coisa me larga; alguma coisa que, desde domingo de manhã, me anda a apertar e sufocar. Mesmo assim, continuo a sentir sempre a sexta-feira. Desde pequenino. Só que agora tenho menos cabelo. Não estou careca, mas para lá caminho. A barba é que cresce todos os dias. Pago contas, muitas contas. Algumas bem altas. E o Euromilhões é logo à noite…
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Charlie Babbitt
às
16:46
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